“Amor Amargo” de Jennifer Brown, foi o livro escolhido para a leitura coletiva do grupo Nome Provisório durante o mês de Março, caso você ainda não conheça o grupo, clique aqui e acompanhe nossas leituras coletivas mensais.

Como os livros são definidos e votados por pessoas com gostos literários bem diferentes, com certeza você vai sair da sua zona de conforto literária e acabar se surpreendendo, bem, pelo menos foi isso que aconteceu comigo.

Em “Amor Amargo” conhecemos Alex, uma jovem pronta para o último ano do ensino médio. Como todos jovens, Alex possui alguns melhores amigos, sendo eles Bethany e Zach.

Juntos, eles sempre planejaram uma viagem pós formatura, porém, não era uma viagem qualquer. Alex quer ir para o Colorado curar suas feridas e descobrir o motivo pelo qual sua mãe abandonou a família e faleceu logo após em um acidente de carro na estrada a caminho do Colorado.

Esse plano perfeito e essa aura de amizade acaba quando um garoto novo aparece na escola, sim, aqui temos aquela velha fórmula “garota-encontra-garoto”.

Cole é o príncipe encantado dos sonhos de Alex, além de ser bonito, divertido e um atleta, o garoto também possui dramas familiares, o que gera uma imediata identificação entre os dois.

E é a partir daí que o livro começa a fugir da fórmula tão utilizada por escritores de Y.A. e começa a tomar rumos mais sérios, tons mais escuros e a leitura leve que o leitor experimenta no início da obra, se transforma em algo denso, cheio de adrenalina e simplesmente revoltante.

Jennifer Brown responde com a sua obra questões que sempre nos perguntamos quando nos deparamos com situações de relacionamentos abusivos, nesse caso em especifico, um relacionamento abusivo que chegou em seu último limite, a agressão física.

Quem nunca se questionou o que faz uma pessoa que sofre agressões continuar o relacionamento, ou esconder o fato de ter sofrido uma agressão? As respostas estão aqui e elas não são nada fáceis de ler, se você estiver disposto(a) a levar vários tapas na cara, apenas pegue o livro e leia.

 “Talvez ficar com alguém que me maltratava fosse melhor do que voltar a ficar sozinha.”

A autora levanta todas as nossas maiores dúvidas acerca do assunto, e não mede palavras para descrever a forma com que Cole se aproveita da instabilidade emocional de Alex, fazendo com que a personagem atenda todas as suas vontades com um medo inconsciente disfarçado de amor. Alex fica dividida entre o sentimento que nutre pelo garoto carinhoso, atencioso e que sempre deixa arranjos de flores no para-brisas do carro e o garoto transtornado, irônico e violento que a xinga, maltrata e agride.

  “Às vezes, acho que… sei lá, tipo… acho que mereço.”

A dor que Alex sempre nutriu devido a morte de sua mãe que a abandonou quando ela ainda era um bebê acabou por torná-la uma pessoa carente de afeto e de uma estrutura familiar, pois os membros da família que sobraram não são nem de longe um exemplo. Com Cole, ela inicialmente encontra esse porto seguro do qual necessitava e acaba se agarrando ao pouco de amor que recebe, ao amor amargo, pois nunca teve muitos exemplos do que é de fato o amor, como é ser amada, fato que a faz se questionar diversas vezes quanto aos motivos pelos quais seu namorado explode, seria ela realmente responsável pelos momentos de ira dele, seria ela culpada de todo inferno que ela está passando.

“E, por incrível que parecesse, esse era o pensamento mais doloroso de todos. Ainda que estivesse magoada, constrangida, humilhada e indignada pelo que tinha feito comigo, continuava louca de amor por ele.”

O livro possui uma escrita bem simples e uma leitura extremamente fluída, porém não é nem de longe uma leitura fácil, é revoltante acompanhar “de perto” tanto o drama da personagem quanto o drama dos amigos que tentam da forma que podem e que sabem, livrá-la daquela situação.

Eu fiquei extremamente tocado e triste ao ler o livro, pois reconheci ali pelo menos uma pessoa de meu convívio que sofreu aquilo e perdoou, que imaginou que tenha sido um impulso, que talvez tenha falado algo que não deveria, se portado de uma forma que não deveria e que aquilo era um fato isolado e talvez a culpa seja compartilhada. Eu quero dizer que não, você não é culpada, você não está fazendo nada de errado e acredite, há sim presentes e futuros melhores e amor de verdade não é isso, homem de verdade não é isso!

É muito triste constatar a quantidade de casos de violência doméstica que ainda acontecem, essa semana a ex-Spice Girl Mel B revelou após um mês de seu divórcio, que ela foi vítima de violência doméstica por 10 anos, sim, a cantora aguentou calada durante uma década. Somente no estado do Pará foram registrados 3.200 casos de violência doméstica em 2016, preste atenção, esse foram o número de casos registrados, e quanto aos casos não relatados á polícia?

“Amor Amargo” provou-se uma obra importante na medida que quebra todas as nossas barreiras e ignorância frente a uma situação tão complicada, a mensagem que fica é que precisamos estar atentos ao nosso redor e fazermos o possível e o impossível para ajudar pessoas que passam por isso, pois na maioria das vezes faltam forças para que elas tomem uma atitude e essa sua ajuda pode significar a vida de alguém!

Caso você esteja passando por uma situação parecida, não se cale, não se permita dúvidas, você não é a culpada e você não deve se conformar, em casos de violência ligue imediatamente para a policia, peça ajuda para familiares e amigos, ligue para a Central de Atendimento à Mulher (180) e saiba que a partir desse mês, o SUS passou a oferecer atendimento para mulheres vítimas de violência doméstica ou abuso sexual, com auxílio psicológico e até cirurgias plásticas.

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