“O Menino no Alto da Montanha” é um livro do escritor irlandês John Boyne e meu segundo contato com o autor, pois até então só havia lido o excelente “O Menino do Pijama Listrado” , eu li a obra como parte do projeto de leituras mensais que faço parte lá no grupo Pacto Literário, caso ainda não conheça, clique aqui.

Quando Pierrot fica órfão, precisa ir embora de sua casa em Paris para começar uma nova vida com sua tia Beatrix, governanta de um casarão no topo das montanhas alemãs. Mas essa não é uma época qualquer: estamos em 1935, e a Segunda Guerra Mundial se aproxima. E esse não é um casarão qualquer, mas a casa de Adolf Hitler. Logo Pierrot se torna um dos protegidos do Führer e se junta à Juventude Hitlerista. O novo mundo que se abre ao garoto é cada vez mais perigoso, repleto de medo, segredos e traição. E pode ser que Pierrot nunca consiga escapar.

Na trama acompanhamos Pierrot em três fases de sua vida, a infância, adolescencia e sua fase adulta e todas essas fases são marcadas por cicatrizes e dor.

Quando criança, Pierrot vivia com seus pais em Paris e essa fase de sua vida não foi nada fácil. O personagem constantemente presenciava brigas em casa entre seus pais, seu pai era alemão e havia saído faz pouco tempo do fronte da guerra, o que lhe causou diversos traumas psicológicos que o levavam a beber e descontar sua fúria na mulher de origem francesa e até mesmo em seu filho.

A única parte realmente feliz de sua vida é o seu melhor amigo, um judeu com deficiência auditiva, cuja amizade é tão forte, singela e delicada que é impossível não se sentir tocado.

Diversas coisas acontecem e Pierrot acaba ficando órfão e inicialmente é levado para um orfanato, pelo menos até o dia em que sua tia distante Beatrix entra em contato com o orfanato e leva o garoto para morar consigo em uma casa onde trabalha como governanta.

Nesse casarão, aos poucos Pierrot vai perdendo a sua identidade, inicialmente é algo imposto pelas circunstâncias, afinal sua tia quer protegê-lo, porém gradativamente Pierrot acaba se envolvendo pelo ambiente e sendo influenciado pelo dono do casarão, Pierrot acaba se tornando quase que um filho para Adolf Hitler.

A adolescencia é uma fase de transição e funciona aqui também como uma transição na vida do personagem. Esse segundo momento do livro é marcado pela transformação da personalidade e dos pensamentos de Pierrot que vão cada vez se tornando mais condizentes com sua situação atual do que com o que ele era em essência e isso me perturbou muito, seria uma pessoa realmente capaz de se transformar ao ponto de se esquecer de quem realmente é e de seus verdadeiros princípios? Outra coisa que me perturbou foi ver a fascinação do personagem por Hitler, eu já desconfiava que esse maluco tivesse uma aura de sedução no sentido manipulativo da coisa, para conseguir que pessoas fizessem atos tão cruéis em nome de sua filosofia, mas mesmo sabendo disso, ainda me assunto.

A terceira parte do livro mostra Pierrot deixando a fase da adolescência e entrando na fase adulta, adquirindo assim consciência acerca das atitudes erradas que tomou e do caminho errado que acabou seguindo, transformando o ato final do livro uma reflexão e um exercício de redenção do personagem.

Com uma profundidade e um senso de sutileza e delicadeza imenso, John Boyne constrói uma história fantástica com um plano de fundo extremamente interessante e importante para nos fazer questionar acerca de assuntos como o preconceito, intolerância, natureza humana, guerra, vícios e acima de tudo amizade.

O Menino no Alto da Montanha é um livro obrigatório para quem gostou de O Menino do Pijama Listrado por mostrar o outro lado da moeda, mas também é um livro necessário para quem ainda não leu John Boyne, pois as lições que podem ser tiradas dessa obra são valiosas e extremamente necessárias em um mundo onde a intolerância que provoca milhares de mortes voltou a ser algo comum nos noticiários.

Quantos cafés O Menino no Alto da Montanha merece?

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