“Melodrama” é o segundo disco de estúdio da cantora e compositora neozelandesa Lorde, que ficou mundialmente conhecida pelo seu debute “Pure Heroine” (2013), vai dizer que você nunca escutou “Royals”? O processo de criação do disco durou cerca de dezoito meses e a produção foi feita pela própria Lorde com auxílio de Jack Antonoff e Frank Dukes.

Em uma entrevista concedida à BBC Music, a cantora definiu o novo trabalho como sendo diferente e superior ao anterior, devido ao seu amadurecimento como compositora, além disso, a cantora definiu o disco como uma transição da adolescência para a vida adulta e que a história do álbum acontece durante uma festa.

A beleza do segundo trabalho de Lorde se inicia pela arte da capa que trata-se de uma pintura feita pelo americano Sam McKinniss, cujo trabalho é focado na arte abstrata, e não há forma mais perfeita para se falar de música, sentimentos e sensações do que o abstracionismo.

Isso tudo se torna ainda mais interessante quando descobrimos que Lorde possui uma condição rara de sinestesia, condição neurológica que possui diversas peculiaridades, sendo a da cantora a possibilidade de enxergar cores e texturas em sons, louco né? Quando ela escuta uma música, seu cérebro traduz os sons como cores, é como se de alguma forma a cantora pudesse ver a música.

Green Light

Já que o assunto são cores, Green Light abre o disco e foi o lead-single do novo material, a canção possui elementos bem diferentes em sua estrutura, tanto que ao consultar o famoso produtor Max Martin sobre a canção, ele a descreveu como uma composição incorreta.

Incorreta ou não, essa estranheza tanto da música, quanto do visual do videoclipe, que é algo muito diferente do que a Lorde já tinha feito, acabaram dando certo e Green Light soa maravilhosa e abre o disco de forma excelente! A cantora já declarou que ao escrever a canção, foi inspirada pela sua primeira decepção amorosa.

A faixa fala sobre como é difícil passar por isso e o quanto você fica sem saber muito bem o que fazer: se esquece de uma vez ou se espera pela pessoa mais um tempo, você simplesmente fica aguardando a luz verde do semáforo para ver se acontece algo que te fará seguir em frente e que nessa espera até as coisas mais bobas conseguem te ferir, como quando ela desabafa “..She thinks you love the beach/ You’re a such a damn liar!”, dizendo que a atual de seu ex acha que ele ama a praia, o que é uma puta mentira, pois ele sequer gosta de praia, ele está mentindo de novo, só que dessa vez para outra pessoa.

Sober

Em Sober, estamos curtindo a festa da cantora. Lorde usa a dança como metáfora para um relacionamento, a composição densa fala sobre o quão bom é quando os dois estão juntos, porém também compara a relação com o uso de drogas, pois tudo é intenso e cheio de adrenalina até que ambos fiquem sóbrios e já não sabem mais direito o que fazer.

A relação aqui é tóxica, cheia de adrenalina, mas a personagem já começa a ver que talvez não haja muito futuro ali. We’re King and Queen of the weekends/ Ain’t a pill that could touch our rush/ But what will we do when we’re sober?

Homemade Dynamite

Em Homemade Dynamite, a cantora encontra alguém durante essa festa que parece ser igual a ela em vários sentidos, eles são intensos juntos, tão intensos quanto dinamites caseiras explodindo.

Eu fico abismado com a forma que a cantora brinca com seus vocais, ela chega a interromper totalmente a melodia para soltar uma onomatopeia de uma bomba explodindo, além disso, Lorde brinca também com a letra da música, afinal, quem descreve um acidente de carro desse jeito: Get your friend to drive, but he can hardly see/ We’ll end up painted on the road/ Red and chrome/ All the broken glass sparkling/ I guess we’re partying. (Coloque seu amigo para dirigir, mas ele mal pode ver/ Vamos acabar pintados na estrada/ Vermelho e cromo/ Todo o vidro quebrado cintilando/ Acho que estamos festejando).

The Louvre

Assim como o museu que dá nome a faixa, Melodrama possui sim muitas obras que poderiam sem dúvida estar expostas em uma galeria e essa faixa em especial é um exemplo disso.

Lorde continua a narrativa do disco, ela está super feliz com o seu relacionamento explosivo e como diz na música, está prestes a colocar um megafone no peito para que transmita as batidas do seu coração para que todos possam dançar ao som do que ela está sentindo. Nessa parte da música enquanto ela diz Broadcast the boom boom boom boom/ And make ‘em all dance to it, podemos ouvir ao fundo sons de uma festa, as pessoas estão realmente dançando ao som de sua felicidade.

They’ll hang us in the Louvre
Down the back, but who cares-still the Louvre

Liability

Lialibity é uma balada emocional voz e piano extremamente triste onde a cantora explicitamente fala sobre o fim de seu relacionamento de forma sincera, crua e visceral. A apresentação feita no SNL que você pode ver abaixo é simplesmente de partir o coração.

Na letra a cantora fala sobre ser considerada um fardo na vida das pessoas e do fato de a usarem como se fosse um objeto e depois descartar quando já não é mais interessante ou não cumpre mais a função que desempenhava “…The truth is I am a toy that people enjoy ‘Til all of the tricks don’t work anymore And then they are bored of me…”, triste, triste, triste e fica mais triste quando ela desabafa que entende que as pessoas façam isso com ela, que nem todo mundo consegue lidar com a intensidade dela! Ao final da música há um fade out que literalmente faz tudo desaparecer, é meio desesperador!

Hard Feelings/Loveless

Essa faixa é a junção de duas músicas, em Hard Feelings a cantora fala sobre o momento no qual os dois decidem terminar e o quão esse momento é difícil, porém, a cantora decide pegar todo o amor intenso que sentia pelo parceiro e dedicar a si mesma. Já em Loveless, a cantora exclama que somos uma geração sem amor, onde um quer arrancar o coração do outro e ferrar com o emocional do parceiro, será mesmo?

We’re L-O-V-E-L-E-S-S Generation

Sober II (Melodrama)

Temos aqui a segunda parte da segunda faixa do disco, acompanhada pelo subtitulo que dá nome ao trabalho. Se na primeira parte de Sober estávamos no início de uma festa, essa segunda parte simboliza o final e agora temos a resposta o questionamento da primeira parte! A canção tem um ritmo que se transforma muito, há até mesmo elementos de hip-hop na faixa, porém nada é feito de forma jogada, a canção é muito bem pensada e estruturada, mais uma das coisas que só a Lorde poderia fazer.

And the terror, and the horror

God, I wonder why we bother

All the glamour and the trauma and the fuckin’ Melodrama

Writer In The Dark

Mesmo que de uma forma pouco convencional, Writer In The Dark é uma canção cheia de empoderamento, um empoderamento advindo do sofrimento e podemos aqui contemplar ambas as coisas.

Enquanto no começo da faixa a cantora parece já estar se acostumando com a ideia de que o relacionamento acabou, no bridge a cantora faz uma espécie de promessa escorpiana, a.k.a maldição, que acaba resultando em um refrão incrível e inesperado onde é possível sentir a vulnerabilidade e a obsessão da cantora enquanto ela entoa como que aos prantos que vai amar até que ele chame os policiais para intervirem no assunto, eita Lorde!

Sem dúvidas Writer In The Dark é uma das minhas canções favoritas do disco, por sua complexidade lírica, narrativa e de composição e olhe que é extremamente difícil eleger algo favorito no disco, pois tudo aqui soa arrebatador.

Bet you rue the day you kissed a writer in the dark

Now she’s gonna play and sing and lock you in her heart

Bet you rue the day you kissed a writer in the dark

Supercut

Em Supercut temos um “respiro” depois de faixas mais lentas, densas e viscerais, aqui temos um momento quase que alegre onde a cantora aparenta ter superado de vez o término, embora ainda se pegue pensando no relacionamento. Ela criou em sua mente uma espécie de montagem de melhores momentos e prefere se lembrar de sua relação dessa forma agora, mesmo que não passe de uma compilação onde fotos feias são deixadas de lado.

In my head, I play a supercut of us

Liability (Reprise)

Na reprise de Liability, Lorde continua se afirmando um fardo, responsabilidade demais para qualquer um lidar, porém aqui já não há tanta lástima, se na primeira parte da canção ela reconhece ser difícil e tempestuosa, aqui ela abraça de vez suas características, em suas palavras: talvez tudo isso seja a festa, talvez nós apenas festejamos violentamente.

 

Perfect Places

A última faixa do disco, assim como a primeira, é um questionamento e encerra o trabalho de forma grandiosa.

Se Lorde começa o disco esperando por uma luz verde que a faça seguir em frente, em Perfect Places ela segue em frente e tenta procurar seu lugar no mundo, um lugar perfeito para ela e seus amigos, porém encerra a faixa ainda se questionando, dessa vez não sobre a hora de agir ou qual seria seu lugar no mundo e sim sobre que merda são lugares perfeitos afinal de contas?

O que faz todo o sentido com a ideia do disco de uma transição da adolescencia para a vida adulta, pois quanto adolescentes somos meio que impelidos a encontrar o nosso lugar no mundo, o lugar onde podemos nos encaixar, mas talvez esse lugar perfeito não exista, talvez você tenha que criar o seu próprio!

Melodrama é claramente uma evolução na carreira da cantora e compositora neozelandesa, se eu tivesse que descrever esse trabalho em uma só palavra, a palavra seria: Rico! O segundo álbum da carreira de Lorde é extremamente rico em sonoridade, composições (escutar esse álbum se iguala facilmente a um romance), conceito e acima de tudo de uma verdade crua e pessoal que só ela consegue transmitir com seu jeito e arte peculiares, além de ser um trabalho sem faixas filler, não há sequer uma faixa desperdiçada no disco, obrigado por essa obra de arte incrível Lorde!

Quantos cafés Melodrama merece?

 

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