Pela Estrada Afora é um livro de contos cujos principais temas que o permeia são o mistério, terror e horror; este é o segundo livro do autor nacional independente Lucas Dallas, o autor também possui um canal no YouTube que você pode conferir clicando aqui.

Pela estrada afora

O conto que abre os trabalhos da compilação de pequenas histórias, também é o conto que dá nome ao projeto.

Na história acompanhamos Christop, um escritor que foi celebrar o casamento de sua irmã, bem, celebrar não é realmente a palavra certa para descrever o que ele foi fazer ali. Se levarmos em conta que ele não morre de amores pelo cunhado e que não nutre tanto afeto pela irmã, não só pela escolha de parceiro, mas pela escolha de vida que ela fez, Christop está ali meramente para cumprir seu papel de irmão e quanto toda a situação torna-se cansativa demais, ele resolve que deve partir no meio da noite até a rodoviária e voltar para sua casa.

O problema é que a única forma de chegar até a rodoviária é seguir por uma estrada escura e deserta e esse problema torna-se maior quando ao segui-la, a estrada parece se alongar e não ter fim. Em meio a sua caminhada, Christop encontra um garoto fragilizado e quieto, então engole seu medo e usa a intensidade de sua angústia como motivação para sair logo daquela estrada e levar o menino consigo para um lugar seguro, mas talvez esse lugar seguro nunca chegue e talvez não tenha sido uma boa ideia ajudar o garoto.

Colhemos aquilo que matamos

O final do conto anterior é interligado com o início desse segundo conto de forma genial, eu gostei muito do que o autor fez aqui.

Tarah está seguindo a estrada para visitar seu pai, quando começa a recordar de um acidente que ocorreu no passado, acidente este que nunca sairá de sua memória, pois após atropelar um homem, ela fugiu desesperada sem prestar socorro e guardou esse segredo junto com seu namorado que a acompanhava na fatídica noite. Para o azar de Tarah, a namorada do rapaz que ela acabou vitimando no acidente é adepta a rituais de bruxaria e não está disposta a deixar o assassinato de seu grande amor em pune, o problema é que talvez Tarah não tenha sido realmente a culpada pela morte do rapaz.

Assim como no primeiro conto, o autor conseguiu tirar meu fôlego nessa segunda história, onde eu fiquei o tempo todo torcendo para que nada de mal acontecesse com a Tarah, ler esse conto é pura aflição, suspense e unhas roídas.

Ramal 666

Por falar em ficar sem fôlego, temos aqui o terceiro conto do livro que pode ser descrito simplesmente como: Tenso Pra Caralho!!!

Sabe quando você é obrigado a ir em uma dessas reuniões de família que acabam acontecendo todo ano, seja em virtude de alguma festa típica ou qualquer coisa assim? Conhece a sensação de sentir-se meio que deslocado em meio a sua própria família nessas ocasiões?

Então, imagine fazer parte de uma família na qual todo ano é feita uma reunião em memória de um tio que faleceu misteriosamente, cujas circunstâncias e motivo da morte seguem desconhecidos até hoje e como se não fosse o suficiente, cheio de pessoas que prosperaram enquanto você segue na mesma vidinha de sempre e ainda sem conseguir encontrar um emprego. É desse jeito que Ronald se encontra, mas tudo muda quando seu primo, que aparentemente mudou da água para o vinho depois que começou a trabalhar em uma empresa, o oferece uma vaga de trabalho para a mesma posição que seu tio falecido ocupava.

O trabalho é simples, atender ao telefone da empresa e transferir as ligações para os ramais corretos, mas há também algumas regras bem estranhas envolvendo os costumes dos que trabalham ali. Há uma regra bem simples para aqueles que trabalham ali, nunca abrir ou entrar em uma certa sala, a sala que atende o ramal 666.

Aos poucos, o mistério acerca daquela sala vai intrigando Ronald que passa a ficar paranoico e em sua paranoia, acaba fazendo descobertas  das quais certamente irá se arrepender.

A pedra das feiticeiras

Esse conto me assustou por um motivo específico e pessoal, quando eu era criança, costumava visitar uma cachoeira com alguns familiares e para chegar até essa cachoeira eramos obrigados a seguir por uma longa trilha, pelo menos essa era a minha sensação quando criança. Nessa trilha nada me assustava, cheguei a ver cobras, lagartos, tínhamos que passar por uma ponte velha caindo aos pedaços, até que ela realmente caiu e foi colocado um tronco no lugar, o que não foi lá uma ideia genial, porém, nada disso me dava medo, pelo menos até o dia em que um dos guias dessa trilha nos contou a história de uma cabana de madeira que sempre víamos no caminho. Sim, a cabana era supostamente assombrada e ali pessoas haviam se matado e qualquer um que ousasse passar a noite ali também teria o mesmo fim, pois os terrores que residiam aquela construção puída não eram fáceis de se encarar.

Deixando um pouco a minha experiência pessoal de lado, a história desse conto nos mostra Mika, uma mulher que acabou de se mudar para uma casa que estava estranhamente barata, mesmo levando em conta as condições estruturais do lugar. O que ela não esperava era descobrir somente depois de ir morar lá que a casa tinha uma história brutal em seu passado e que a cidade toda esconde essa história para não atrair publicidade ruim para o local. Movida pela curiosidade e pelo medo, Mika tenta desvendar os mistérios de sua nova casa e aprende que compras baratas podem acabar custando caro.

Durante a leitura do conto eu fiquei imaginando a personagem residindo na tal casa assombrada que deixou aquela trilha menos bonita na minha infância e justamente por isso torci com todas as minhas forças para que tudo desse certo no final, mas bem, você sabe como essa história de casas assombradas funciona né?

O Homem-Pássaro

O quinto conto do livro é o mais curto, quase que um interlúdio entre os contos. Aqui temos um homem assombrado por uma história antiga que sua mãe contava quando ele era criança acerca de um homem-pássaro que transformava em pássaros as crianças que não dormiam na hora em que os pais as mandavam dormir.

Moloque

Gente, esse conto….rapaz, sério…esse conto! Eu tenho muito ranço e medo e ódio e todos os tipos de sensações ruins quando leio alguma história que envolve mulheres grávidas, adquiri esse ranço todo quando li o conto “O Método Respiratório” do Stephen King e até hoje torço o nariz quando começo a ler algo e descubro que a personagem está grávida. Pois bem, Sr. Lucas Dallas, você me paga!

O conto nos mostra uma mulher grávida sendo enganada por sua vizinha e levada para uma casa no meio da floresta com propósitos nada bonitos, com toda a certeza foi o conto dessa antologia que mais me deixou arrepiado e eu nem quero falar mais sobre ele, tchau!

Rabo de peixe

Chegamos ao penúltimo conto dessa antologia e temos aqui um conto de fadas, owwn que lindo, não caro leitor, não tem nada de lindo aqui.

Vivendo em uma ilha isolada com seu marido, que não lhe permite ir embora, e sua filha pequena, Rapunzel é infeliz. Sua infelicidade torna-se maior quando sua filha adoece e mesmo assim seu marido não lhe permite sair da ilha sequer para levar a filha para um hospital no vilarejo. Desesperada com a situação em que se encontra sua filha e cansada do relacionamento abusivo que possui com seu marido, Rapunzel encontra na oferta de uma sereia a solução para os seus problemas.

Sua filha deve usar no pescoço um cordão com um rabo de peixe pelo resto de sua vida, para que sare da doença, caso a criança tire o amuleto, acabará transformada em areia da praia, mas não acaba por aí, nada é de graça. A sereia retornará em dez anos para buscar sua recompensa e cabe a Rapunzel nessa data escrever na areia o nome da pessoa que será recolhida e oferecia para a criatura, será essa a oportunidade definitiva de se livrar de seu marido abusivo e ainda ter sua amada filha consigo segura e saudável para sempre? Será?

A Carpideira

A história que encerra o livro nos conta sobre uma personagem bem peculiar, caso você não saiba, carpideiras eram mulheres contratadas para chorar em funerais antigamente.

Na história uma carpideira é contratada para prantear um rei em seu funeral e para isso ganha um baú cheia de tesouros, porém, ela decide que uma vez que o rei está morto, ela não precisa mais se dar ao trabalho de ir ao seu funeral chorar e pode agora aproveitar seu tempo desfrutando da riqueza que o defunto deixou, preciso dizer que ela fez merda ou você já conseguiu sacar por si só?

Pela Estrada Afora é um excelente livro de contos para quem ama o gênero do terror, aqui o autor abusa de referências e gostos pessoais, eu conheço um pouco o Lucas e não me surpreendi ao ver referências a série Twin Peaks por exemplo e ver um conto com elementos de bruxaria ou até mesmo uma personagem sereia, o que me surpreendeu foi conferir o que ele fez com todas essas referências e o quão bem ele escreve e constrói todas essas histórias que são interligadas mesmo que sutilmente por uma estrada que certamente você nunca desejará trilhar.

Eu estou ordenando recomendo que você adquira já o seu exemplar, sendo ele físico ou digital!

Quantos cafés Pela Estrada Afora Merece?

 

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