Carniceiro Mefítico é o segundo livro do autor brasileiro Jean Thallis natural de Londrina e o primeiro contato que tive com a escrita do autor, sua obra remete-se a um subgênero do terror, o gore.

É em Colniza, cidade do norte do Mato Grosso, que se passa a história do livro. A cidade fez parte do projeto de colonização da Amazônia na década de 80, nessa época o objetivo do governo era tirar as famílias de sem terras da região Sul e assentá-las em terras produtivas.

Assim, o autor utiliza o contexto da época como plano de fundo para a sua estória mostrando a dificuldade dos assentados, principalmente as dificuldades que os primeiros assentados do Projeto de Assentamento Perseverança Pacutinga tiveram que enfrentar, como doenças como a malária, a falta de estradas e longos períodos de chuva que deixavam os moradores ilhados. Além de temer a malária e todas as condições adversas, os residentes de Colniza passam a temer mais uma ameaça e é ai que o autor mistura o real com a ficção.

Repentinos sequestros passam a acontecer na cidade e cobre o lugar e seus residentes com uma mortalha de horror. Pedro, o personagem principal da história, faz parte de uma de muitas das famílias que vivem em assentamentos com produção de café, o jovem vive com sua mulher e filha e também está amedrontado e temendo que sua filha acabe sendo o alvo do décimo sétimo rapto.

Infelizmente, os temores de Pedro se concretizam em uma noite que transforma-se em um aperitivo para os dias amargos, violentos e sangrentos que lhe aguardam. O personagem tem sua filha sequestrada no meio da noite e corre atrás do captor que parte para a floresta com sua filha pendurada nas costas.

O captor não é humano, sua pele é branca, quase que translúcida, seus cabelos são vermelhos e seus dentes afiados são dourados, além disso, seus pés são estranhamente desfigurados, o demônio captor de crianças é um velho conhecido de todos nós, o Curupira.

Esqueça aqui o seu conhecimento sobre a criatura folclórica que protege as árvores, os bichos e os índios do homem branco. O anão de cabelos vermelhos e pés ao inverso ganha aqui uma versão mais sombria e brutal que certamente você não vai ouvir na escola, assim como os contos dos irmãos Grimm, Jean Thallis nos entrega um personagem da nossa cultura em uma roupagem que certamente destoaria em uma coletânea de contos de fada. Curupira aqui não é apenas um captor de crianças, ele é um demônio vil, um carniceiro mefítico estuprador, canibal, assassino e necrófilo.

Ao tentar resgatar sua filha de tão terrível demônio, Pedro acaba se perdendo em plena floresta amazônica e é obrigado a encarar o fato de que sua filha tornou-se apenas mais uma das presas do Curupira, como se não fosse o bastante, o demônio agora decidiu que Pedro pode ser um novo brinquedo interessante para brincar.

Com uma escrita brutal, sem firulas, cheia de descrições gráficas e atormentadoras, Jean Thallis subverte uma lenda nacional a um patamar inimaginável, Carniceiro Mefítico foi sem dúvida o livro mais difícil, aterrador e angustiante que li esse ano! Deixo bem claro aqui que indico sim a leitura do livro, porém apenas para pessoas que tenham estômago para tal, pois o autor não poupa o leitor de detalhe algum, fato que me deixou surpreso e impressionado não só pela escrita impecável como também pela coragem, pois se para ler a obra é necessário ter estômago, creio que o trabalho para escrever uma história tão visceral careceu de muito culhão.

Quantos cafés Carniceiro Mefítico merece?

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