A Torre Negra (The Dark Tower) é a adaptação da mais extensa e grandiosa obra do autor estadunidense Stephen King, esse projeto cinematográfico ficou engavetado por anos e passou de mão em mão, o problema era que ninguém conseguia encontrar uma forma de transmitir a complexidade do mundo criado por King para o cinema, eis que em 2017 o diretor Nikolaj Arcel resolve encarar o desafio e o resultado podemos conferir nos cinemas esse mês.

Quando eu fiquei sabendo que o universo de A Torre Negra seria adaptado para o cinema, minha cabeça explodiu, pois eu não consigo descrever aqui o amor que sinto por essa obra do autor que é o meu favorito da vida; porém, em vista de diversas adaptações anteriores de obras do mestre, eu deveria ter ido com um pouco menos de sede ao pote.

Assim que começaram a sair as primeiras críticas internacionais do filme, eu recolhi o meu coração de fã e decidi que iria assistir ao filme com plena consciência de que ele não representaria nem a metade da metade de um grão de areia do deserto que Roland (Idris Elba) percorre atrás do Homem de Preto (Matthew McConaughey). Calma Luke, encare isso como um filme qualquer e não como a adaptação dessa saga maravilhosa que fala sobre uma Torre que mantém o universo e se utiliza disso como metáfora, uma vez que a obra em si é algo que interliga todos os universos criados pelo autor em todas as suas obras.

Jake Chambers (Tom Taylor) é um garoto pecúliar que passa a maior parte de seu tempo desenhando. Seus desenhos em sua maioria são monotemáticos, ele ilustra uma Torre Negra, um Homem de Preto e um Pistoleiro que segue pelo deserto perseguindo o vilão.

Com o passar do tempo o garoto começa a ter pesadelos com seus próprios desenhos e passa a confundir a realidade com a imaginação, bem, pelo menos é assim que sua mãe e seu padrasto interpretam seu comportamento e chegam a constatar que a melhor coisa a se fazer é interná-lo em uma escola especial. Apesar de imaginativo e de ter perdido o pai e ainda sofrer com as circunstâncias terríveis do incidente que lhe deixou sem sua figura paterna, uma vez que seu padrasto não serve para ocupar o papel, ele não é um jovem perturbado e doente, Jake é um Iluminado, assim como Danny Torrance de “The Shining”.

Fugindo dos capangas do Homem de Preto, Jake acaba adentrando no Mundo Médio e encontrando por lá o tal Pistoleiro que tanto desenhou, porém, descobre que Roland está muito longe de ser uma figura receptiva, o último Pistoleiro é uma figura bem reclusa e até mesmo fria devido aos eventos que ocorreram em seu passado e que o filme não mostra. Aos poucos, (na verdade, bem rápido) os personagens vão adquirindo intimidade e Jake revela ao Pistoleiro seus pesadelos e como o Homem de Preto está fazendo para destruir a Torre. O método que o Homem de Preto se utiliza envolve crianças que possuem iluminação, e como a iluminação em Jake é intensa, ele torna-se um alvo do Homem de PretoAgora além de lutar para manter a Torre de pé e vingar-se de seu arqui-inimigo, Roland precisa proteger Jake.

Como fã, eu gostei bastante das pequenas referências que o filme faz às obras do autor, embora certas referências apareçam para esquentar o nosso coração e esfriá-lo logo em seguida.

Um exemplo disso ocorre logo na primeira cena onde vimos crianças brincando em um gira-gira (uma roda), se você é fã, já conseguiu fazer a ligação, porém, esse é o único momento em que temos uma menção, se é que isso funciona como uma menção, ao Ka. Triste né?

Eu também gostei bastante do elenco, sinceramente não tenho o que me queixar das atuações, inclusive souberam adaptar bem a habilidade do Pistoleiro para as telas e Idris Elba faz um ótimo trabalho como Roland, Matthew McConaughey só é desfavorecido pelas piadinhas do roteiro que estão bem longe de serem boas.

É muito triste ver personagens criados pelo Stephen King não terem desenvolvimento no cinema, o filme deixou todos os personagens extremamente unidimensionais, temos o bem, o mal e o personagem que faz a função do telespectador de acompanhar, embora consiga também interferir em algumas pequenas coisas, esse é sem dúvida um defeito gigante se você considerar o fato de que o autor é extremamente preocupado com o desenvolvimento de seus personagens, ele até chega a pecar pelo excesso de desenvolvimento.

Hotel Overlook

Outro grande problema do roteiro é não levar em conta que nem todo mundo que vai assistir ao filme conhece a mitologia criada pelo autor, o filme simplesmente joga conceitos que com toda a certeza pode confundir e fazer com que o telespectador perca o interesse pelo que está sendo mostrado, uma vez que em momento algum se importa em explicar seus elementos. Mas calma, temos uma mágica aqui, essa falta de consideração pelos detalhes e explicações pode deixar o telespectador tão intrigado que lhe cause uma vontade ferrenha de ler o material original para pelo menos tentar entender essas coisas que são jogadas na tela.

Eu nem vou mencionar aqui a decisão de pegar elementos de diversos livros e condensar tudo nesse primeiro filme (se é que teremos uma sequência) e também não vou me dar ao trabalho de falar sobre o terceiro ato do longa, pois é apressado demais e fácil demais em vista do que deveria ser.

Ao contrário do que andam falando por aí, A Torre Negra está longe de ser um filme inassistível, eu entendo o ranço que os fãs vão ter com o longa, pois eu também sou fã, porém se encararmos o filme somente como um filme entretenimento, temos aqui um filme okay, redondinho que vale a pipoca e pode apostar que ainda assistiremos muito na Temperatura Máxima aos domingos. O que resta aos fãs é esperar que, caso realmente seja feita uma sequência ou uma série, ela seja escrita e dirigida por alguém que mire com o olho, atire com a mente e mate com o coração.

Quantos cafés A Torre Negra merece?

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