“Suicidas” é o primeiro romance publicado do autor nacional Raphael Montes, a primeira vez que o livro foi publicado foi em 2012 pela Editora Benvirá e esse ano foi republicado pela Companhia das Letras, editora que também lançou seu segundo romance e já publicado em diversas línguas “Dias Perfeitos” e mais dois outros livros do autor.

Nove jovens se reúnem em um porão com um objetivo em comum, acabarem com suas vidas em um jogo de roleta-russa. O que poderia ter levado universitários, quase todos da elite carioca e aparentemente sem problemas, a terem um encontro final com uma Magnum 608?

Diana Guimarães é a delegada no comando das investigações do caso e um ano após o trágico evento se vê prestes a entender o que aconteceu naquele porão quando uma nova pista surge para iluminar o caso bizarro. Sendo assim, a delegada convoca as mães dos jovens para uma reunião cujo objetivo é descobrir o que realmente aconteceu e quais foram os motivos que levaram seus filhos a cometerem um ato tão extremo. Para isso, Diana se utiliza de um diário de um dos jovens, Alessandro, e um caderno do mesmo encontrado na cena do crime, caderno este que contém a descrição detalhada de tudo que ocorreu ali.

É importante dizer que o livro é narrado em primeira e também em terceira pessoa, além disso, a trama é dividida em três linhas temporais diferentes, onde o diário do Alessandro nos mostra o passado antes dos acontecimentos fatídicos, o caderno encontrado na cena do crime nos mostra o que ocorreu no dia dos suicídios e a transcrição dos áudios da reunião das mães com a delegada e duas cartas nos mostram o que está acontecendo no presente.

Essa transição temporal contribuí muito para deixar o leitor ávido por informações, fazendo com que a leitura flua extremamente rápida, apesar de não abordar temas fáceis de serem digeridos. Temas como homossexualidade, auto-aceitação, gravidez na adolescência, violência doméstica, pré conceitos de diversos tipos, depressão e é claro, o suicídio são tratados aqui sem muita maquiagem de forma que chega até a ser fria em alguns momentos; porém a frieza com que a história é narrada e o desenrolar dos acontecimentos, se contrasta com a estranha e surpreendente empatia que os personagens muito bem desenvolvidos acabam gerando no leitor.

Não é somente o diário de Alessandro que nos desperta curiosidade para conhecer um pouco das motivações dos jovens, ou o caderno encontrado na cena do crime que vai nos contando cada passo dado e cada tiro disparado pelos jovens dentro daquele porão, a transcrição do áudio da reunião promovida pela delegada também é empolgante e desperta sim curiosidade no leitor. Inclusive é possível perceber que cada uma das mães está em um dos estágios do Modelo de Kübler-Ross, popularmente conhecido como os cinco estágios do luto, ou até mesmo transitando entre dois ou mais estágios, caso você não conheça, os cinco estágios do luto são:

  • Negação: “Isto não pode estar acontecendo, não é verdade!”
  • Raiva: “Por que comigo? Não é justo.”
  • Negociação: “Deixe-me viver apenas até ver os meus filhos crescerem.”
  • Depressão: “Estou tão triste. Porquê me hei-de preocupar com qualquer coisa?”
  • Aceitação: “Vai tudo ficar bem.”

Na medida que vamos avançando na leitura e conhecendo as motivações dos jovens, as cruéis verdades relativas ao jogo proposto por Zak (se eu cruzasse com esse cara na rua, eu sairia correndo) vão aparecendo e deixando a leitura cada vez mais tensa fazendo com que o leitor anseie por chegar ao fim e ao mesmo tempo tema pelo final que será dado aos personagens.

Ao chegar ao final do livro somos surpreendidos com pelo menos dois plot twists que são simplesmente de derrubar o queixo do leitor e fazer com que ele saia quicando pelo chão, Sr Raphael Montes, eu vi o que você fez e agora estou com medo de você.

“Suicidas” é um livro extremamente envolvente, daquelas leituras que você não consegue largar e se delicia com cada detalhe ansiando pela resolução dos mistérios e ao mesmo tempo temendo que a história acabe. Eu simplesmente devorei o livro e todos os meus amigos do grupo de leituras coletivas #PactoLiterário também comeram o livro com arroz e feijão. É interessante também que o autor se utilizou de suas experiências pessoais, quando tentou publicar esse primeiro livro, como background para a história e motivações de um dos personagens, tenho certeza que caso você seja um aspirante a escritor e tem vontade de publicar sua obra um dia, vai adorar ver o que Raphael Montes fez aqui.

Não posso deixar de mencionar a sensação de que o livro se encaixaria muito bem em uma série para a TV, não sei como ainda não fizeram isso, ei Globo! Enquanto a série não chega, pelo menos há uma adaptação teatral para a obra que reestreou esse mês em São Paulo no Espaço Parlapatões, e eu já estou louco para conferir o espetáculo “Roleta Russa” e rever esses personagens peculiares criados pelo Raphael!

Se por algum motivo você chegou até esse texto por estar sofrendo por algum motivo, saiba que existem pessoas dispostas a te ajudar a superar o momento difícil que você está passando e amenizar sua dor. A sua vida vale muito e você é uma pessoa especial e única. Entre em contato com o Centro de Valorização da Vida.

Quantos cafés Suicidas merece?

Anúncios