“Lore” (Crença) é a nova série original da Amazon Prime que estreou na última sexta-feira 13, a série surgiu a partir de um podcast homônimo criado por Aaron Mahnke, o projeto ainda conta com o livro ilustrado “The World of Lore: Monstrous Creatures”, ainda sem previsões de ser lançado por aqui.

A série que conta com os mesmos produtores executivos de “The Walking Dead” e “Arquivo X”, trata-se de uma série antológica, onde cada um de seus seis episódios apresentam uma história diferente. As histórias narradas por Aeron Mahnke misturam cenas dramatizadas, animações e arquivos reais e históricos para mostrar como lendas do horror, tais como, vampiros, lobisomens, metamorfos e até bonecas possuídas pelo capiroto surgiram, e como elas se conectam com eventos reais. Como tratam-se apenas de seis episódios, vou falar um pouco sobre cada um deles.

They Made a Tonic

O primeiro episódio da série fala sobre a morte, nada melhor do que iniciar uma série de terror justamente pelo tema que mais amedronta e fascina o ser humano, embora seja a nossa única certeza.

O começo do episódio nos apresenta uma história em animação de duas irmãs para mostrar ao telespectador que antigamente as pessoas tinham muito medo de serem enterradas vivas e que o medo não era infundado e era tão presente na sociedade que chegaram a inventar mecanismos ligados aos caixões com saídas de ar e até mesmo uma engenhoca que permitia a pessoa tocar um sino para alertar o erro, inclusive daí surgiu a expressão “Salvo pelo gongo”.

Porém, depois dessa introdução, o episódio foca em algo maior e nos conta a história da família Brown. A família Brown foi uma família azarada e praticamente todos os membros contraíram tuberculose, o patriarca foi obrigado a ver seus amados familiares padecerem da doença e sempre fez de tudo que estava em seu alcance para evitar que a morte levasse mais um, pelo menos, ele achava que já tinha feito tudo, até que homens aparecem em sua casa com uma solução bizarra.

O episódio então nos apresenta como surgiu a lenda do vampiro que conhecemos hoje, o caso da família Brown inclusive inspirou ninguém menos que Bram Stoker a escrever sua clássica obra “Drácula”, que por sua vez também influênciou toda a mitologia vampiresca que temos hoje em dia. Um baita episódio angustiante, interessante, informativo e de fazer o coração sufocar de tristeza.

Echoes

O segundo episódio da série fala sobre a loucura, o medo que todo o ser humano tem de si mesmo, uma vez privado de todos os freios que lhe impede de cometer atos inimagináveis. Os loucos e as Instituições Psiquiátricas  sempre foram personagens de histórias de terror, vide “American Horror Story: Asylum”, por representarem o nosso lado negro.

As primeiras Instituições Psiquiátricas estavam bem longe de significar a cura do doente, não haviam lá tratamentos psiquiátricos que objetivavam a melhora do paciente, as pessoas eram trancadas e esquecidas e médicos se aproveitavam disso para fazer experiências com tratamentos terríveis repletos de violência que dificilmente melhorariam o quadro psiquiátrico dos internos, a doença psiquiátrica era comumente também associada ao satanismo e possessões demoníacas.

Na década de 40, o médico americano Walter Jackson Freeman II revolucionou o mundo da psiquiatria ao desenvolver e difundir a lobotomia pré-frontal realizada através da craniotomia, um método menos invasivo e mais rápido. Essa descoberta de Freeman dispensaria a necessidade de Instituições Psiquiátricas para sempre, uma vez que apresentava resultados quase que imediatos, o problema foi justamente o imediatismo que só permitiu a desastrosa visão do tratamento a longo prazo quando aproximadamente 3.500 pessoas já haviam sido operadas por Freeman.

Freeman era um Neurologista sem qualquer formação cirúrgica e mesmo assim realizou milhares de lobotomias transorbitais, procedimento no qual um picador de gelo é introduzido, martelado com um martelo de borracha por detrás do globo ocular até o cérebro, todas as cirurgias foram realizadas sem sequer a assistência de um cirurgião formado. O caso mais famoso de Freeman foi Rosemary Kennedy, irmã de J.F.K. e após a cirurgia, ficou inválida com apenas 23 anos de idade.

Com o tempo e a invenção de drogas anti-psicóticas, a lobotomia foi abandonada aos poucos substituída por medicamentos terapêuticos, assim, a reputação de Freeman desmoronou, o que não o impediu de continuar realizando suas cirurgias até que a morte de um de seus pacientes durante o procedimento, resultou na revogação de sua licença médica.

Esse com toda certeza é um episódio que vai te deixar verdadeiramente incomodado(a), não somente por conta da forma com que é mostrado como as Instituições Psiquiátricas tratavam seus internos, mas também pela tamanha ambição de um homem que colocou sua carreira e vaidade na frente da saúde mental, física e psicológica das pessoas. O episódio é um grande exemplo do quanto o ser humano pode ser mal e mais assombroso do que qualquer monstro.

Black Stockings

Em 2 de Junho de 2009 em Ithaca, New York, os recém casados Caroline Coffet e seu marido Blazej Kot, saíram para uma corrida no parque, quando Blazej assassinou sua mulher. Em seu julgamento, o advogado de defesa de Blazej afirmou que o seu cliente sofria da Síndrome de Capgras, um raro distúrbio psiquiátrico onde as vítimas passam a crer que alguém amado foi trocado por alguém com a mesma aparência, porém o juri rejeitou o distúrbio e a versão de Blazej dos acontecimentos e ele foi condenado à prisão perpétua. Acredite, isso é uma história real.

Por mais inacreditável que pareça, há séculos atrás, essa explicação era bem comum na Irlanda, onde as pessoas frequentemente buscavam respostas na magia e na superstição.

Em 4 de Março de 1895, em Ballyvadlea, Irlanda, as pessoas acreditavam em uma superstição que dizia que se a pessoa que você ama de repente mudasse de comportamento, como se tivesse se tornado outra pessoa, ela na verdade não era mais a pessoa que você ama e sim um espírito sócia, um metamorfo. Os metamorfos eram criaturas místicas e mágicas que se apossavam de pessoas e as substituíam, entrando assim no nosso mundo; seus principais alvos eram mulheres e crianças, pois eram e ainda são consideradas frágeis.

Existiam diversas formas de banir o metamorfo e trazer de volta a pessoa amada, mas nenhuma dessas formas era fácil, sendo as mais comuns expor o metamorfo ao fogo até que ele saia do corpo da pessoa amada, utilizar uma infusão de dedaleira para expurgar o metamorfo (remédio cardíaco que pode levar à morte) e em último caso, quando nada mais funcionava e o nono dia se aproximava, uma vez que acreditava-se que após a substituição, caso o metamorfo não fosse expulso, ele ocuparia para sempre o lugar da pessoa possuída para sempre, o remédio final era a morte.

O caso mais famoso da Irlanda aconteceu com Bridget Clearly e seu marido Michael Clearly. Bridget foi uma das mulheres que se empoderaram quando surgiu a máquina de Singer e seu comércio de ovos e roupas era a principal fonte de renda da família, uma vez que o negócio do marido não ia bem. Essa mudança, esse empoderamento e uma pneumonia foram elementos suficientes para que Michael se convencesse de que sua mulher havia sido substituída por um metamorfo e como naquela época o marido precisava apenas da opinião de dois médicos para iniciar os preparativos para expulsar a coisa do corpo da amada, Michael inicia a tarefa de correr contra o tempo e ter sua amada de volta antes que o nono dia se complete.

É assustador ver os subterfúgios que a sociedade machista se utiliza desde os primórdios para exercer a subjugação da mulher. Bridget Clearly era uma mulher empoderada, bem sucedida, que trazia sustento para o seu lar e isso foi demais para a cabeça de seu marido que logo associou tudo à entidades místicas, pois quela, não poderia ser de forma alguma a mulher submissa com quem se casou.

Mas esse não é o único exemplo que o episódio se utiliza, os casos de Histeria, uma doença psiquiátrica exclusivamente associada às mulheres, eram tratados com um remédio chamado Calomel, que tinha em sua base o mercúrio, substância que causa insanidade, ou seja, na tentativa de exercer o machismo e afirmar que a mulher estava louca, a tratavam com um medicamento que de fato a deixava louca. Sem dúvida alguma, o episódio 3 de Lore deveria ser visto por todo mundo.

Passing Notes

Passing Notes é um episódio que nos conta como surgiram as sessões espíritas e como o charlatanismo descreditou a prática.

Assim como a morte, o pós morte também é um assunto que intriga, fascina e amedronta o ser humano e é justamente sobre isso que o episódio se propõe, discutir a comunicação com os espíritos, seria ela mesmo possível ou é tudo charlatanismo mesmo? Enquanto discute isso, o episódio nos mostra como a crença foi difundida, é interessante acompanhar certos elementos históricos no episódio que mostram que houveram tentativas, algumas aparentemente bem sucedidas, de comunicação com espíritos de pessoas que você não esperaria, como a gravação de uma sessão com Arthur Conan Doyle.

Enquanto apresenta alguns fatos, somos apresentados a história de um homem que quer falar com sua amada pela última vez, confira o trecho de um dos fantásticos diálogos do episódio abaixo:

– Quando Ele chama, nossas almas são chamadas para o céu ou banidas ao inferno. Não existem fantasmas das pessoas que viveram entre nós. Os únicos espíritos que cruzam da morte para vida são demônios oferecendo nada além de tentação através de portas que deveriam ficar fechadas e trancadas.

– E eu estaria disposto a abrir essa porta e olhar para dentro daquele lugar, Isaac. Para ver a Elisabeth uma última vez.

The Beast Within

O penúltimo episódio da primeira temporada destrincha a crença sobre os lobisomens, contando desde a origem das lendas no século V, passando pela história de Peter Stubbe, homem que aterrorizou Bedburg e foi conhecido como o primeiro “caso de lobisomem”, o assassino 44 Caliber Killer que fez diversas vítimas em New York no ano de 1977 e mandava cartas jocosas para a polícia assumindo uma identidade animalesca e posteriormente afirmando ter feito tudo sob a ordem de uma entidade satânica em forma de cachorro e a história de Eugen Weidmann, o último caso de sentença de morte realizada em público.

O episódio também mostra evidências que alimentaram a imaginação das pessoas, como a hipertricose, doença caracterizada pelo excesso de pelos, que pode conferir ao portador uma aparência de lobisomem, até a licantropia, condição psiquiátrica que faz com que a pessoa acredite que tenha se tornado um animal e passe a manifestar comportamentos animalescos.

Todos os fatos apresentados nesse episódio servem ao propósito de demonstrar que o ser humano não estava e não está preparado para compreender a própria maldade e frequentemente associa atos atrozes à demônios, criaturas malignas e animais para se esquivar da verdade de que nós podemos ser muito mais bestiais do que os seres que criamos na nossa imaginação.

Unboxed

O último episódio da série vai explorar o medo de bonecas e para isso se utiliza de vários exemplos e fatos bizarros.

A história de abertura mostra uma ilha que você já deve ter visto, mas talvez, ainda não tenha conhecido a história. Na década de 50, Julian Santana mudou-se para uma ilha após abandonar sua família, certo dia, ele encontra um corpo de uma menina no rio junto com sua boneca e desde esse dia, passou a crer que o espírito da menina afogada estava assombrando-o por ter abandonado a família. Desde então, Julian passou a cuidar da boneca da garota para acalmar seu espírito e passou a coletar bonecas para mantê-la em paz, até que teve seu fim, já idoso, ao tentar resgatar uma boneca no mesmo rio, morrendo afogado da mesma forma que encontrou a garota e a primeira boneca.

Fotografia real da “Isla de Las Munecas”

Em 13 de Fevereiro de 2014 em Key West, Flórida, Eugenne Otto, filho de Thomas e Minnie Otto recebe um boneco de presente, o garoto sempre foi muito calado e recluso acreditavam que ele poderia se desenvolver e fazer amizades por conta do brinquedo, porém o garoto se torna cada vez mais recluso e coisas estranhas começam a acontecer ao redor do boneco, que o garoto nomeou Robert.

Até hoje Robert é atração de um museu de Key West e recomenda-se que quem quiser uma foto com ele peça ao boneco antes de fotografá-lo, pois ele costuma se vingar daqueles que o fotografam sem autorização, inclusive por todo o museu há cartas de pessoas que visitaram e tiraram fotos sem autorização do boneco e presenciaram coisas estranhas depois, essas cartas em sua maioria são pedidos de desculpa, implorando que o boneco retire a maldição que jogou sobre as vidas daqueles que fotografaram-o sem pedir.

Charlie McCarthy olhando para a filha de Bergen

O episódio também conta a história de Bergen e seu boneco ventríloquo Charlie McCarthy que fez sucesso em 1950, mas não a história que todos conhecem, mas sim, como eram os bastidores.

Bergen tratava o boneco como membro da família, dando mais atenção ao boneco do que a própria filha, chegando a deixar sua filha sem parte alguma da herança e uma quantidade vultuosa de dinheiro destinados ao cuidado do boneco. Além disso, conta a história de Anatoly Moskvin, um especialista linguístico que desenterrou diversos corpos de garotas e os mumificou, transformando-as em bonecas; em sua casa foram encontradas diversas “bonecas” algumas com dispositivos musicais instalados na barriga, Anatoly tomava chá, lia histórias e quando foi preso disse que apenas cuidava e mantinha aquecidas garotas que foram abandonadas e enterradas na terra fria.

“Lore” é uma série que mostra o poder da nossa crença, a força que a nossa fé tem tanto de curar quanto de destruir e como o ser humano cria seus próprios monstros e fantasmas para ocultar a parte ruim de sua própria essência. A série é bem diferente e seu maior êxito está em justamente se utilizar de fatos históricos para explicar essas lendas e crenças que existem até hoje, não se espante se você começar a série imaginando temer criaturas e acabar a série com receio de você mesmo(a).

Quantos cafés a primeira temporada de “Lore” merece?

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