Foi em Julho que tive o meu primeiro contato com a escrita do autor brasileiro independente Jean Thallis, esbarrei com o nome do autor por acaso e decidi ler Carniceiro Mefítico, uma vez que estava lendo e indicando autores nacionais independentes por aqui. Decrépita Avareza é o seu quarto livro, publicado em Julho, e é sobre ele que vamos conversar hoje!

E ele poderia encher um balde de catarro e sangue tossindo, escarrando e cuspindo, mas nunca gastar um centavo com a merda de um médico que lhe diagnosticaria mais três doenças de brinde e um câncer! Jamais gastaria seu dinheiro comprando porcarias de remédios, seu corpo era suficientemente forte para cuidar daquela gripe sozinho, sem despesas desnecessárias.

Narrado em terceira pessoa, o livro nos conta a estória de um homem machista e decadente que perdeu seu emprego e foi abandonado pela sua ex-esposa, que partiu levando consigo suas filhas. Entregue aos seus vícios, ele passa seus dias na janela de seu apartamento decrépito, fumando, tomando cerveja e observando Lucy trabalhando na praça que fica de frente para a sua janela.

O personagem principal aqui é simplesmente deplorável, um retrato do quão baixo um homem pode ser, ele parece seguir a máxima que diz: “Eu já perdi tudo mesmo, o que vier é lucro”. Porém, esse lucro nunca chega e o personagem vai cada vez mais chafurdando no fundo do poço até que sua miséria de espírito, pois dizer pobreza de espírito aqui é muito pouco, alcança níveis simplesmente grotescos. Ele vive cercado de lixo e dejetos, não se importa mais sequer com a sua higiene pessoal, vive em meio ao lixo, lixo podre cheio de chorume e bigatos e para ele, está tudo bem.

Fotomontagem por Um Café com Luke

Para piorar a personalidade do personagem, ele é extremamente avarento e se recusa a gastar com aquilo que considera supérfluo, coisas como sabonete, produtos de limpeza, um corte de cabelo, só levariam embora o dinheiro que ele poderia gastar de forma mais efetiva comprando maços de cigarros de péssima qualidade, daqueles mais baratos, e cerveja da mesma procedência, pois até nos seus vícios, cujos gastos considera indispensáveis, ele economiza.

Ele economiza, pois sabe que a grana vai acabar, ele gastou muito, ou quase tudo que podia e não podia, quando a sua ex-esposa o deixou; torrando o dinheiro de sua rescisão, seguro e poupança em noitadas, prostitutas e drogas.

 

Talvez estivesse dramatizando demais consigo mesmo, dando-lhe um momento de autoflagelação, pena ser tão tarde para prazeres masoquistas.

Em meio aos seus dias avarentos, ele se vê obcecado por Lucy, mais especificamente pela bunda de Lucy, ele se vê tão obcecado que não se importa de gastar seu dinheiro contratando seus serviços, porém quando contrata os serviços sexuais do travesti, ele vê não só a realização de seus desejos, como também a danação de sua sanidade.

Estou falando aqui sobre um livro do gênero Gore, que trata-se de um subgênero do horror, portanto, é muito comum a presença de cenas violentas, com muito sangue, vísceras, fluídos corporais e restos mortais, pois o intuito do gênero é chocar e despertar sensações de desespero, nojo, ansiedade, repulsa e medo e com toda a certeza Jean Thallis consegue despertar todas essas e mais algumas terríveis sensações com a sua escrita e seus personagens.

“Decrépita Avareza” é um livro nojento, mas não só por conta da descrição do ambiente no qual o nosso personagem vive, ele é nojento, pois nos faz ver até que ponto uma pessoa “normal” pode chegar. O autor faz isso enquanto discute temas relevantes e atuais, como o vício, a prostituição, questões de gênero, condição sexual, preconceito e machismo, um machismo extremo que tirou tudo que mantinha a sanidade do personagem no lugar certo, um machismo que ele saboreou pedaço por pedaço até se engasgar e se ver sufocando no seu próprio avarento e decrépito espírito.

Quantos cafés com uma xícara suja “Decrépita Avareza” merece?

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