MÚSICA: LOBOS – JÃO

“Lobos” é o álbum de estreia de Jão, cantor e compositor brasileiro, que após ser bem-sucedido com covers no YouTube chamou a atenção de gravadoras e passou a trilhar seu caminho na música divulgando singles de grande sucesso como “Ressaca” e “Imaturo”.

“Quando a lua cheia cair sobre o sertão vazio, e iluminar a terra e seus corpos frios, anunciem em afoite. Saiam das ruas todos, foi iniciado o expurgo da noite. É o arrebatamento dos desgraçados, malcriados, vagabundos, um a um, ainda que em medo, irão todos. Pois que uivem alto os perdidos. A alcateia saúda os novos lobos.”– Manifesto contido na capa do disco

Capa do disco “Lobos”

O disco é composto por 10 faixas, sendo 8 delas inéditas, pois já conhecíamos “Imaturo” e “Aqui”, músicas divulgadas anteriormente como material de divulgação do disco que estaria por vir. O trabalho é um resgate da música pop nacional, onde o artista insere diversos elementos e ritmos brasileiros em uma atmosfera mais eletrônica, com composições que falam sobre o amor, as dificuldades intrínsecas aos relacionamentos e os desafios que a vida nos propõe.

“Vou Morrer Sozinho” é oficialmente o primeiro single de trabalho do álbum e reflete muito bem isso que eu disse. A canção começa com violão e voz e não demora muito para que  o brega apareça aliado à efeitos computadorizados para deixar a música mais dançante.

O ritmo dançante aliado à letra que, como se percebe desde o título da faixa, fala sobre desilusões amorosas e da dificuldade do intérprete de encontrar um amor que o preencha ao invés de lhe despertar desinteresse ou mágoas, fazem da faixa uma peça tragicômica que com toda a certeza Sidney Magal interpretaria e rebolaria ao som durante um show.

“Me Beija Com Raiva” vem em seguida e anuncia de vez que o tema do disco vai ser esse mesmo, o pop sofrência é real. Se na primeira faixa é clara a influência do brega, aqui é notável elementos sertanejos, a canção caberia claramente no repertório de qualquer dupla.

A canção fala sobre o término de uma relação ou às brigas que precedem o término, porém mesmo com esse tom, uma das partes continua implorando por mais, por mais um beijo, mesmo com o sentimento de raiva, em nome de todo aquele sentimento lindo que haviam construído antes, em nome da quele “maior amor do mundo” que eles conseguiram foder.

Photoshoot de “Vou Morrer Sozinho”

“Lindo Demais” é uma das minhas faixas preferidas do disco ao lado de “Eu Quero Ser Como Você”, ela já começa com um grito “Porra, a gente se ama, isso é lindo demais” para anunciar um plot twist nas canções de amores proibidos que são tão intrínsecas ao mundo da música pop, aqui o artista não está muito interessado em lamentar os empecilhos e as proibições, ele quer é festejar esse sentimento lindo, pois ele é mais importante e forte do que qualquer outra coisa.

Com toda a certeza, é uma faixa para gritar, pular e vibrar muito, tenho certeza que será um dos pontos altos dos shows da primeira turnê do artista que se inicia em Setembro. A batida da música é bem dançante, um tanto quanto ébria, e as exclamações de vozes na segunda parte da faixa e a frase sendo repetida por uma voz aliada ao uso de sintetizadores fazem de “Lindo Demais” um single em potencial, resta saber se as rádios vão colocar uma faixa com um palavrão em sua programação.

Photoshoot clipe “Vou Morrer Sozinho”

“Imaturo” é uma das faixas que havia sido lançada como single promocional do disco e felizmente entrou na tracklist do trabalho. A canção é daquelas que grudam na cabeça desde a primeira vez que se escuta e eu duvido muito que você ainda não tenha escutado.

Na faixa seguinte “Ainda Te Amo” deixamos o ritmo dançante de lado para dar lugar à uma balada cantada apenas com o apoio de um violão. A composição fala sobre superar o fim de um relacionamento da pior forma possível, se metendo em encrenca e tentando distrair a cabeça das maneiras mais degradantes possíveis para não ter tempo de pensar sobre o amor que ainda existe apesar do fim. Com ecos de “Imaturo” a canção é muito bem posicionada no tracklist e anuncia as consequências de ter vivido esse amor imaturo.

Eu bato meu carro/ Aprendo a roubar/ Eu arranjo briga/ Bebo em algum bar

Beijo qualquer boca/ Eu traço algum plano/ Só pra não lembrar/ Que ainda te amo

“A Rua” é uma grande surpresa e uma faixa bem diferente no disco, com um ritmo dançante, um coro de mulheres que são meio que uma personificação da rua, um clima cigano que reflete à composição e ao ritmo que também tem influências do candomblé. Sem dúvida alguma é uma faixa bem brasileira. A composição fala basicamente sobre encontrar refúgio na rua, por mais que esse pareça ser um ambiente perigoso aos olhos dos pais, aqui Jão cita sua mãe e isso ocorre em diversas composições do artista.

A faixa título do disco “Lobos” surgiu como uma antítese à canção “Não Vá Embora” de Marisa Monte, a canção fala sobre liberdade total, estar confortável em sua própria pele sabendo que até as suas imperfeições são necessárias, pois fazem de você o que você é.

Nada do que você diz/ Faz sentido algum/ Porque eu tenho a minha própria caminhada

“Eu Quero Ser Como Você” é a minha faixa favorita do disco ao lado de “Lindo Demais”, ela não retrata um sentimento bonito, ela retrata um sentimento de inveja disfarçado de amor, onde você quer ser aquela pessoa e passa a se espelhar, concorrer com ela ao invés de ser um elemento de soma, é uma composição bem depreciativa, com um ritmo lento aliado ao violão e efeitos sonoros que aos meus ouvidos soam um tanto quanto fantasmagóricos.

Sempre me disseram que eu ia enlouquecer/ Se eu continuasse me espelhando em você

Me entrego demais/ Você arrisca não querer/ Por favor me ensina a ser assim como você

A penúltima música do disco também não é uma novidade, “Aqui” foi a inédita do projeto “Primeiro Acústico” lançado nas plataformas digitais como promoção do trabalho, porém, a faixa teve algumas mudanças, sendo a maior delas a colaboração do português Diego Piçarra, marcando este como o primeiro feat da carreira de Jão.

“Monstros” encerra o disco de forma incrível, apoiada por um piano, a canção é extremamente emocional, reflexiva, confessional e pessoal. A composição narra as lutas de Jão para chegar até onde está, todos os monstros que enfrentou e ainda enfrenta, a descrença das pessoas que julgaram seu sonho como loucura, que nunca esperaram ver o menino do interior fazendo sucesso com aquilo que sempre sonhou fazer. Jão chegou a dizer em algumas entrevistas que a canção fez sua mãe chorar quando escutou o disco e garanto que ela não foi a única.

Sempre me acharam louco/ Por querer ser mais um pouco/

Sei que eu tenho os meus monstros/ Mas continuo a caminhar

“Lobos” é um excelente disco de estreia de um artista que vem lutado há um bom tempo pelo seu lugar ao sol, o disco reflete as lutas e acima de tudo sentimentos críveis e identificáveis por qualquer um que já tenha sofrido de amor ou se inflado com esse sentimento maravilhoso, por qualquer um que tenha sido alvo de piadas por sonhar e para aqueles que concretizaram e ainda vão realizar seus sonhos e mostrar para aqueles que riram, que eles estavam errados em menosprezar sua força. Jão é sem dúvida alguma um grande artista, com um timbre único e que ainda só está no começo do que promete ser uma carreira incrível e ganhou mais um lobo imperfeito, porém obstinado em sua alcateia.

Quantos cafés “Lobos” merece?

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