MÚSICA: MATRIZ – PITTY

“MATRIZ” é o quinto álbum de estúdio da minha banda de rock nacional favorita da vida, sim, estou falando de Pitty. Cinco anos após o maravilhoso “SETEVIDAS”, Pitty volta a nos entregar um álbum completo após um hiato para viver a experiência da maternidade, experiência essa que foi retratada no mini documentário “Do Ventre à Volta”, mas se engana quem pensa que nesse tempo ela ficou completamente parada, mulher de espírito livre e criatividade indomável, Pitty integra há 3 temporadas o sofá do programa “Saia Justa”, lançou “Na Pele” em uma parceria linda com Elza Soares e também o single promocional “Contramão” em parceria com as talentosíssimas Emmily Barreto e Tássia Reis.

“MATRIZ” chegou semana passada às plataformas de streaming, brevemente será lançada em outros formatos, após um ano de gestação. O processo do álbum foi bem diferente dos outros quatro discos já lançados, ao invés de primeiro gravar para só então entrar em turnê, foi decidido que o disco se construiria em meio a turnê e foi assim que nasceu em 26 de Abril o quinto disco da banda.

Na época do lançamento do “SETEVIDAS”, lembro que a cantora disse em algumas entrevistas que havia ali uma faixa onde ela flertava com elementos de sua raiz baiana, essa faixa era “Serpente”, se formos considerar essa afirmação, fica claro que o flerte de “Serpente” resultou em um casamento que gerou “MATRIZ”, um disco totalmente alicerçado nas raízes da Pitty. O reflexo dessas influências é perceptível já pela capa do disco que foi feita a partir de uma fotografia clicada por Otávio Sousa, fotografo incrível que caminha com a banda há um bom tempo, e design de Pedro Hansen.

“Bicho Solto” abre os trabalhos do disco e já dá uma boa ideia do que se esperar desse novo projeto. A faixa é completamente diferente de tudo que conhecemos do repertório da cantora, como quase todas as faixas desse disco, mas isso não quer dizer perda de identidade, pelo contrário. Uma das coisas que sempre mais me chamaram atenção na banda são as composições e aqui, mesmo que com poucas frases, Pitty já mostra a que veio e deixa bem claro que o fato de ter se domesticado em função de coisas que aconteceram em sua vida, como a gravidez que privou-a dos palcos por exemplo, ela continua sendo a mesma pessoa, não se engane. O ritmo tem influências de matriz africana e remete muito a Bahia, apesar de ter uma atmosfera um tanto quanto soturna, provoca uma vontade de dançar, isso é culpa da mistura louca de piano, percussão corporal, sussurros e um sample de “Noite de Temporal” de Dorival Caymmi, uma delícia de intro.

“Noite Inteira” chega como o hino de revolução do qual estávamos precisando, com guitarras pesadas, distorções e um twist caribenho que inusitadamente cabe muito bem na faixa, somando à participação de Lazzo Matumbi incitando resistência em um timbre monstro, a canção não pode ser definida de forma diferente, é um baita hino de revolução. Respeite a existência ou espere resistência! A composição é incrível, a parte falada da canção onde é acrescido o ritmo caribenho me remeteu bastante à letra de “Admirável Chip Novo” só que às avessas, aqui nada de não sinhô, sim sinhô, há sede por debate, há sede por palavra e não há abertura alguma para deixar que alguém tome as rédeas por você.

Após o hino de resistência Pitty te coloca para dançar em “Ninguém é de Ninguém”, canção composta em parceria com seu marido e baterista nessa nova formação da banda Daniel Weksler. A canção tem um ritmo super animado, com direito à palmas, bateria super presente e um pós refrão com um ritmo muito dançante e brasileiro, me remeteu ao ritmo de Belém, a aparelhagem tão presente em músicas de artistas como a parceira de “Saia Justa” Gaby Amarantos, se eu fosse a Pitty não perderia a oportunidade de lançar esta como um eventual próximo single. Cara, como eu amo ouvir essa mulher gritando kkkkk sem brincadeira, músicas como “Pouco” e “Medo” onde ela solta uns gritões são incríveis e isso acontece aqui. No final da faixa a Pitty sussurra alguma coisa que eu não consegui entender muito bem, se alguém desvendar me diga nos comentários.

“Motor” é a primeira balada do disco, e é uma canção composta pelo cantor e compositor baiano Teago Oliveira da banda Maglore, o que também é uma coisa diferente no repertório da cantora que costuma compor todas as canções de seus trabalhos. A composição da faixa é um absurdo de linda, é poesia pura e com toda a certeza é uma das minhas queridas do disco, ela combina demais com a vibe da cantora e do disco e eu amo o sotaque e a suavidade com a qual a cantora emprega a nessa faixa, o que combina demais com o instrumental que beira o sublime, ouvir Pitty com violinos ao fundo é uma experiência que eu nem sabia que iria, mas recomendo para todo mundo.

Após “Motor” Pitty recita uma frase, como ela disse em recente entrevista, trás a palavra pra frente em duas vinhetas “Saudade” e “Azul”, no meio dessas duas vinhetas está “Roda”, faixa em parceria com o BaianaSystem. Cara, que faixa louca, gostosa, poderosa, energética e MEU DEUS EU QUERO SAIR PULANDO PELO QUARTO!!! Repleta de percussão, guitarras pesadas, brados, gritos e quando BaianaSystem entra rimando a música fica absurdamente incrível. A faixa fala sobre cultura hardcore, sobre o que é viver de rock e hardcore no nordeste e sobre a roda de pogo que é basicamente uma dança punk rock.

“Bahia Blues” é uma biografia cantada e é incrível, depois de ouvir pela primeira vez peguei a minha edição de “Pitty – Cronografia: Uma Trajetória em Fotos” e a experiência ficou ainda mais rica. Você consegue enxergar a canção tamanho nível de detalhes que a composição tem. A cantora chegou a dizer que a capa do disco é a representação de Bahia Blues, representa a garota que saiu de Salvador com seu sonho e teve que se distanciar de suas raízes para realizar seus sonhos, mas que agora se permite revisitar essas raízes. Para quem acompanha a carreira dela desde o começo, assim como eu, essa canção vai bater com um significado gigante demais.

Agora que Pitty se permite revisitar suas raízes, “Te Conecta” te convida a refletir sobre o seu momento atual, sobre o seu meio, sobre o que te faz ser você, o que te faz se conectar com você mesmo e com as pessoas ao seu redor. Eu amo demais esse que foi o primeiro single do disco e ele diz muito também sobre o “Matriz”, pois aqui Pitty parou para escutar o interno que há e de quebra decidiu nos contar tudo sobre essa experiência.

Pode entrar minha faixa favorita do disco, “Redimir” me pegou tanto que eu nem consigo falar muito sobre ela. A composição é visceral, é verdadeira, crua, FODA DEMAIS! O instrumental denso combina com a letra e confere um clima pesado e tenso à faixa que possui palmas, violinos cortantes e sons de chicote. Cara, é sério, Pitty sem palavras pra “Redimir”, preciso viver a experiência de escutar essa música ao vivo.

“Para o Grande Amor” é uma canção composta por Peu Sousa. Peu foi o primeiro guitarrista da banda e um grande amigo da cantora, inclusive foi o responsável pelo instrumental de “Equalize”, uma das maiores e mais conhecidas baladas da cantora. Peu já havia sido homenageado de certa forma pela banda no disco “SETEVIDAS” onde na canção “Lado de Lá” Pitty reflete sobre a decisão do amigo e sobre a morte em si, uma faixa pesada e bem emocional. Ao contrário disso, “Para o Grande Amor” é uma faixa com uma vibe mais solar, aquele tipo de música para escutar com o mozão em uma road trip sabe, um clima bem diferente se comparado ao restante do disco.

“Submersa” também é uma das minhas favoritas do disco ok está ficando vergonhoso e foi uma das, senão a primeira, composição que surgiu para o disco. A composição é uma espécie de auto-análise e possui um tom bem confessional onde a cantora reflete sobre a retomada de sua identidade após a experiência da maternidade e ela meio que tentando se forçar a sair dessa nova realidade na qual está submersa, libertar a si mesma e liberar também a filha para o começar a viver o mundo.

“Sol Quadrado” encerra o disco com participação especial de Larissa Luz e backing vocals de Lazzo Matumbi, a faixa tem um instrumental bem leve e trata-se de uma composição antiga gravada em uma demo voz e violão em 2002. A composição fala sobre resistência, sobre resistir aqueles que te falam para desistir, sobre aqueles que falam que não vai dar certo ou que você sonha grande mais, resistir e questionar sempre foi cerne das composições da cantora e aqui não é diferente, ela fala bastante sobre não se afastar mais de sua essência, não fugir. Pitty conseguiu trazer várias participações interessantes para o disco, eu não conhecia o trabalho da Larissa, mas cara, que timbre foda, forte, intenso e poderoso o dessa mulher e quando ele se junta aos de Lazzo, cara!!!! Ao final da canção Larissa Luz e Pitty declamam um texto que eu recomendo forte que vocês ouçam com atenção. Não há sol quadrado para quem é bicho solto!

“Matriz” é um disco completamente diferente de tudo que tínhamos visto da Pitty até o momento, a banda conseguiu incorporar ritmos completamente diferentes e um tanto quanto improváveis na sonoridade desse quinto álbum sem perder em nenhum momento a essência e identidade, as participações especiais também são incomuns em trabalhos da banda e estão aqui com um propósito de mostrar as várias faces underground da Bahia, eu vejo todos os questionamentos somados à novos questionamentos, uma faixa de 2002 que tem uma letra extremamente contemporânea, uma mulher se conectando às suas raízes e se mostrando mais para seu público enquanto revisita seu passado para compreendê-lo, digeri-lo e tirar o melhor proveito possível dessa experiência. Eu sinceramente tenho orgulho da banda, da evolução, da consistência e da resiliência e até teimosia em lançar um disco conceitual contando uma história do começo ao fim em uma era onde tudo é muito rápido e a maioria das músicas são engolidas individualmente. Escutem “Matriz”, vejo vocês nos shows, abração e até o próximo café.

Quantos cafés “MATRIZ” merece?

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