CINEMA: DOUTOR SONO

“Doutor Sono” é a adaptação do livro homônimo e continuação do clássico “O Iluminado” do autor Stephen King. É sempre perigoso mexer em clássicos, eu tive medo quando King divulgou o lançamento de “Doctor Sleep” deixando claro que era uma continuação, que se passa anos depois do surto de Jack Torrance no Hotel Overlook, e ainda mais medo quando foi divulgado que seria feita uma adaptação do livro com elementos da adaptação clássica de Kubrick, que desagradou profundamente o autor; para o meu alívio, Mike Flanagan concilia o melhor dos dois mundos e nos entrega uma obra bem competente.

Anos após ver a sanidade de seu pai ser consumida pelas forças malignas do Hotel Overlook, Dan Torrance (Ewan McGregor) precisou aprender a viver com dois fardos, o da memória e também o da sua iluminação. Esses dois fardos acabaram por tornar Dan em um homem fracassado, viciado em álcool e extremamente perturbado pelos demônios enclausurados em sua mente.

A vida e realidade medíocres que Dan vive acaba sendo interrompida por um evento que lhe desperta para os rumos com os quais está levando sua existência e, ciente dos perigos de continuar seguindo a mesma trilha, ele decide mudar de cidade e recomeçar a vida em um outro lugar, onde encontra um emprego no qual pode usar seu dom para ajudar pessoas em estado terminal. As coisas parecem melhorar ano após ano, quando tentativas de contato misteriosas começam a acontecer, cada vez mais fortes, até que a presença física da jovem Abra Stone (Kyliegh Curran) se apresenta pedindo sua ajuda para enfrentar uma ameaça terrível.

Essa ameaça é o “Verdadeiro Nó”, uma seita comandada pela impetuosa, fria e calculista Cartola (Rebecca Ferguson), onde seus integrantes se alimentam da alma de pessoas iluminadas, majoritariamente crianças, para obter um prolongamento de suas vidas. A força incomparável da iluminação de Abra chama a atenção do grupo que passa a caçá-la. Caberá a Dan proteger a garota em uma jornada de auto-descoberta, confrontamento com o passado e redenção.

Depois do grande fiasco que foi a adaptação de “A Torre Negra”, eu aprendi a manter minhas expectativas sobre adaptações de obras do King em um nível bem baixo para não correr o risco de sair do cinema querendo enfiar um garfo nos olhos novamente. Isso me ajudou bastante a enfrentar a maré de adaptações que estrearam esse ano, tivemos o ótimo “It: A Coisa – Capítulo 2”, o desnecessário porém útil “Cemitério Maldito”, o esquecível “Campo do Medo” e as novas temporadas de “Mr. Mercedes” e “Castle Rock”. Felizmente, Mike Flanagan conseguiu fazer parte do time #adaptaçõesquenãodãovontadedefingirquenãoexistem e nos entrega um filme digno para encerrar a maré de adaptações de King para as telonas em 2019.

Flanagan tinha algumas grandes responsabilidades nas mãos, adaptar um livro do King, adaptar um livro que é a continuação de uma de suas maiores e mais conhecidas histórias e criar uma obra cinematográfica que dá continuidade ao filme de Stanley Kubrick que fez King experimentar um pouco da vontade que tive de enfiar um garfo nos olhos ao assistir “A Torre Negra“. Para a minha, a sua e a alegria do King, o diretor conseguiu conciliar todas essas responsabilidades de uma forma bem competente, levando em consideração os eventos estabelecidos no filme do Kubrick, corrigindo as mudanças que eram passíveis de correção, ganhando pontos com o autor da obra original, e dando um desfecho digno para toda a história da família Torrance.

Um dos meus grandes medos ao ver o trailer do filme era que o diretor fizesse um trabalho de cópia do que foi feito pelo Kubrick e, felizmente, isso não ocorre. O diretor homenageia o clássico com seu devido respeito, mas não deixa de exprimir sua própria identidade no longa. É claro que é estranho ver novos atores interpretando personagens que já conhecemos em cenas específicas, mas você queria o quê? Aberrações no nível Renesmee Cullen?

“Doutor Sono” trabalha muito bem um senso constante de perigo, que faz com que o telespectador realmente tema pelos personagens. Ele é um filme e um livro totalmente diferentes de “O Iluminado”, mas diria que o contraste é bem maior na mídia cinematográfica, aqui há mais diálogos, não há tantos planos longos e inventivos quanto o primeiro, mas há um aprofundamento e expansão de uma mitologia que foi apenas pincelada por Kubrick em sua adaptação.

Os personagens aqui são muito bem construídos, todos eles, e as atuações estão excelentes, fazendo com que o longa, mesmo com sua duração extensa e seu ritmo lento, não perca o telespectador em nenhum momento. O trio Ewan McGregor, Kyliegh Curran e Rebecca Ferguson estão excelentes em seus papeis, Ewan convence muito como um homem assombrado por seus demônios, Kyliegh, apesar de iniciante, bate de frente com esses autores veteranos como se tivesse nascido para interpretar Abra e Rebecca entrega uma vilã, que na minha opinião, é a sua melhor atuação no cinema até agora.

É, meus amigos, não foi dessa vez que senti vontade de arrancar meus olhos com um garfo, a adaptação de Mike Flanagan me deixou com vontade de sacar meu exemplar de “O Iluminado” da estante e conferir mais uma vez a história da família Torrance, e se isso não é um bom exemplo de um desafio bem executado, o que é então? Vamos torcer para que 2020 chegue com mais adaptações assim, pois as obras do mestre merecem!

Ainda não conhece a história da família Torrance? Adquira “O Iluminado” e “Doutor Sono” pelo link do blog na loja da Amazon.

Quantos cafés “Doutor Sono” merece?

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